Dormir demais

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  Querida Noa, Enquanto escrevo, escuto a trovoada ao longe. A Lili e o Mike já começaram a olhar para mim com aquele ar de quem pede que a tempestade vá fazer barulho para outro lado. Curiosamente, gosto destes dias. Logo depois da chuva chega sempre um vento leve. O ar volta finalmente a ser respirável. Hoje tive de tomar os meus medicamentos naturais para dormir. O problema é que passei praticamente o dia inteiro a dormir. Fiquei a pensar na Takako, do livro de Satoshi Yagisawa. Lembras-te? Também ela conseguia dormir durante dias inteiros. Quando tinha quinze anos aconteceu-me o mesmo. A tristeza era tão pesada que acordar parecia exigir mais força do que continuar a sonhar. Talvez seja por isso que gosto tanto das noites de verão. Quando o calor abranda... parece que a vida também respira um pouco. Com carinho,                                      ...

Quando o Silêncio Me Escreve

 

Cartas a Noa de Lini Chibi de bolso

Querida Noa: 


    Hoje sentei-me para escrever na esplanada do café.

    À minha frente estavam o mar, a praia vazia e a maresia que chegava devagar com o vento.

    Olhei o horizonte e, durante vários minutos, não aconteceu absolutamente nada.

    A caneta ficou parada sobre o papel.

    Nem uma palavra.

    Nem um sopro.

    Nem um rabisco.

    Nem uma ave.

    Só o silêncio.

    E foi então que pensei: Talvez o silêncio também escreva. Talvez existam dias em que ele precise de chegar primeiro para depois dar lugar às palavras.

    Vivemos rodeados de ruído.

    Notificações.

    Conversas.

    Notícias.

    Listas de coisas para fazer.

    Telemóveis.


    Por isso hoje sentei-me ali apenas para ouvir o silêncio.

    Será que o silêncio também fala?

    Às vezes é tão difícil ouvir a nossa própria voz que acabamos por acreditar que ela desapareceu.

    Mas ela continua lá.

    À espera que alguém lhe dê um pouco de silêncio.

    Talvez hoje não precises de encontrar respostas.

    Talvez baste ficares contigo durante alguns minutos.

    Respirar.

    Olhar o horizonte.

    Ouvir o vento.

    As palavras acabam sempre por escorregar para as linhas vazias que as acolhem.

    E, quando regressam, trazem qualquer coisa que o barulho nunca conseguiu dizer.


Com carinho,

Lini 💗😉                                


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