Dormir demais

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  Querida Noa, Enquanto escrevo, escuto a trovoada ao longe. A Lili e o Mike já começaram a olhar para mim com aquele ar de quem pede que a tempestade vá fazer barulho para outro lado. Curiosamente, gosto destes dias. Logo depois da chuva chega sempre um vento leve. O ar volta finalmente a ser respirável. Hoje tive de tomar os meus medicamentos naturais para dormir. O problema é que passei praticamente o dia inteiro a dormir. Fiquei a pensar na Takako, do livro de Satoshi Yagisawa. Lembras-te? Também ela conseguia dormir durante dias inteiros. Quando tinha quinze anos aconteceu-me o mesmo. A tristeza era tão pesada que acordar parecia exigir mais força do que continuar a sonhar. Talvez seja por isso que gosto tanto das noites de verão. Quando o calor abranda... parece que a vida também respira um pouco. Com carinho,                                      ...

As noites mais quentes

            Querida Noa,


    

    As noites estão extremamente quentes.

    E ainda dizem que este verão vai ser o mais fresco dos próximos anos. Só essa ideia já me faz pensar que, no próximo verão, terei o cérebro completamente cozido.

    Agora que penso nisso...

    Lembras-te de quando o meu pai comia, todo animado, cérebro de não sei que animal?

    "É um prato típico", dizia ele, sempre acompanhado por um copo de vinho.

    Nós olhávamo-lo completamente enojadas, sem dizer uma única palavra.

    E ele ria.

    Hoje acho que ria muito mais das nossas caras do que propriamente daquele prato suculento.

    Já nem me lembro do nome da receita e, para ser sincera, também não tenho grande vontade de o recordar.

    Depois íamos sentar-nos no degrau da porta de casa para olhar as estrelas.

    Era um daqueles momentos em que eu quase nunca te via fazer nada.

    Até conseguias falar mais baixo do que era costume.

    Já tínhamos arrumado tudo — mais tu do que eu, diga-se de passagem — antes de irmos para ali.

    As luzes das casas já se tinham apagado.

    Nós também apagávamos as nossas para não atrair melgas e evitar sermos devoradas pelas picadas durante a noite.

    As ruas estavam completamente desertas.

    Nas noites de verão corria sempre aquela aragem deliciosa que parecia refrescar o mundo inteiro.

    De vez em quando aparecia o Manel.

    Na verdade, tu chamavas Manel a todos os vizinhos.

    Nunca percebi se era porque não sabias os nomes deles ou simplesmente porque nunca te davas ao trabalho de os decorar.

    Este Manel em particular vinha sempre agarrado às paredes de um lado ao outro da rua.

    Nem sequer tentava disfarçar.

    E tu, muito séria, dizias sempre:

                                                        — Boa noite, vizinho.

    Ele seguia caminho até chegar ao portão de casa.

    Parava.

    Olhava para as escadas.

    Chamava pela mulher.

    Mas àquela hora ela já não aparecia. Acho que ninguém conseguia convencer aquele homem a subir mais um degrau.

    Então fechava o portão...

    ...e deitava-se ali mesmo.

    Depois da passagem dele, voltava o silêncio.

    E nós continuávamos ali, sem pressa, a olhar para o céu estrelado de uma noite de verão em Portugal.


Lini💗😉                                    

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