Dormir demais
Querida Noa,
Perante esta página em branco, lembrei-me da minha professora da escola primária. Lembras-te dela? Tinha o cabelo curto, cheio de caracóis que, apostávamos nós, eram feitos em casa com rolos. Imaginávamos que dormia com um lenço na cabeça para os manter perfeitos.
As nossas professoras quase nunca usavam maquilhagem. Ou, pelo menos, não parecia. Mas o cabelo estava sempre impecável, preso por quilos de laca que nem o vento conseguia mover.
Será que a laca faz cair o cabelo?
Ou será que o cola de vez?
Então porque é que os homens ficam carecas e as mulheres quase nunca?
Tenho a certeza de que, se estas fossem as perguntas da composição, eu nunca teria ficado a olhar para uma folha em branco.
Mas não. Em vez disso, pediam-nos para escrever sobre as férias.
Os meus colegas escreviam desenfreadamente.
E eu...
Ficava a olhar para aquelas linhas vazias.
A página em branco não é apenas uma ausência de palavras.
É a presença de todas as incertezas.
O que será que uma página em branco quer?
Perfeição?
Verdade?
Presença?
Coragem?
Sempre que olhava para aquelas linhas, imaginava um stickman, como aqueles desenhos que apareciam na televisão durante cinco minutos.
Quando finalmente escrevo a primeira palavra, alguma coisa muda.
Ou se quebra. Ou se constrói.
E a página passa a ser minha. 😉
E, se é minha...😏
Porque é que havia de deixar os outros lê-la? 👀
Foi então que o meu stickman escreveu:
"De que cor era o cavalo branco de Napoleão?"
Lini🩷😉
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